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A ligação do passado com o novo na obra da cantora Amy Winehouse


A chegada dos anos 2000, para muitos apreciadores de música, sinalizou o fim do que há de inovação na arte e na cultura jovem. Infelizmente, aos que nasceram no final da década de 90, resta ouvir os relatos dos mais velhos e expressar por meio da linguagem corporal o incômodo ao escutar o tradicional “no meu tempo é que era bom” ou “essa geração de hoje em dia não tem mais atitude e bom gosto”.


O termo “saudosismo” é empregado em conversas (sinceramente, até acho que o termo apropriado é “conversa de boteco”) que variam desde o esporte, entre os defensores do futebol “raiz”, até a política, por meio do reacionarismo filosófico. A tendência por parte dos jovens, até alguns anos atrás, era ignorar esse tipo de posicionamento e fugir da responsabilidade em combatê-lo.


Entretanto, desde as últimas eleições e os seus resultados na saúde e bem-estar de milhões de brasileiros, parece que as pessoas decidiram levar mais a sério a força que esse tipo de opinião tem na sociedade. Reflito muito a respeito das origens por trás do retorno dos partidos de extrema-direita nas últimas décadas, porém, curiosamente, no mês de setembro, esses pensamentos tomaram um formato que eu não imaginava, e tudo começou ao relembrar a carreira de uma das minhas artistas favoritas: a Amy Winehouse.


O aniversário de 10 anos da morte da cantora, em 14 de setembro de 2011, fez-me revisitar a discografia dela e conhecer mais sobre a história e a obra de uma das vozes mais originais e marcantes dos últimos anos. Em vida, Amy deixou apenas dois discos: o Frank (2003), nome que faz referência ao cantor Frank Sinatra, e o Back To Black (2006) - esse com o intuito de falar sobre os seus conturbados relacionamentos amorosos e dos conflitos psicológicos internos vivenciados pela moça que, no período de lançamento do álbum, tinha somente 22 anos.


No primeiro contato com as músicas dos CDs, mesmo os que nunca se interessaram ou ouviram-nos perceberão a evidente inspiração na black music dos anos 40 a 60. O tom “jazzístico” nos arranjos vocais e instrumentais do Frank revela o resultado de uma educação musical construída por vinis de Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Thelonious Monk, Dinah Washington, Ray Charles, Billie Holiday e Tony Bennett. Esse último assumido por Amy como uma das suas principais inspirações musicais e com quem ela realizou uma colaboração musical, premiada como a melhor performance em dupla, na 50ª edição do Grammy (2012).


De acordo com a própria, o objetivo da sua música era de romper com o modelo de composição na música pop vigente e introduzir um retorno às canções de estilo menos industrial, focadas em composições próprias, presença de banda, performances ao vivo no estúdio e a ênfase nas letras baseadas em experiências angustiantes do escritor. Inserida em um ambiente social e familiar marcado pela separação e exploração financeira dos pais, o uso de antidepressivos aos 16 anos de idade e a dependência afetiva pelo ex-marido, Blake Fielder, a cantora tinha conteúdo de sobra para as canções.


E a consequência dessas experiências abusivas resultaram na morte por excesso de álcool, precedida de uma overdose de heroína, utilizado para acompanhar a pressão de alcançar os sonhos de terceiros, como o seu pai Mitchell Winehouse. A exposição à heroína por Blake, levou ao fim, premeditado pela junção entre a dependência química de bebidas alcóolicas e o corpo franzino ocasionado pela bulimia, presente no seu comportamento desde a pré-adolescência.


Todavia, a aparência destruída pelas drogas e pelo distúrbio alimentar, que marcou a sua imagem frente ao público durante o auge da sua carreira, não é perceptível nos primeiros registros audiovisuais após o lançamento do Frank e das gravações do Back To Black. Nesse período, ela aparentava ter um peso e um corpo saudável, perceptível ao compará-lo à fisionomia anoréxica nos seus últimos anos de existência.


A performance da música “Stronger than Me”, do primeiro álbum, no programa de auditório do “Later With Jools Holland”, no canal BBC no Reino Unido, serve de exemplo e de ilustração dessa transição física. Considero essa apresentação como a minha favorita da Amy Winehouse, e um exemplo das suas desconhecidas habilidades na guitarra. O vocal perfeitamente entonado, as linhas minimalistas de baixo e de bateria, que fornecem a base para os acordes advindos do jazz, o solo de saxofone e o timbre dos instrumentos, resultaram em uma experiência de tranquilidade, ou, dependendo do momento, de dança suave embalada pelo groove criado pela banda de apoio.


O destaque fica com a voz da cantora, que exibe um registro grave, característica de cantores contraltos. Ao escutá-la pela primeira vez, não há como não a associar ao jazz. Curiosamente, um estilo considerado chato ou pretensioso entre os jovens e exaltado por saudosistas.


Porém, em outro exemplo da sua qualidade técnica, a britânica mostra que o novo não é o oposto do antigo, mas sim uma extensão do que foi pavimentado pelos heróis do passado. Nada se perde, e o atual, de forma alguma precisa abandonar as origens. No Back To Black esse direcionamento toma outras proporções ao adotar outros estilos, como o Reggae, o Soul e o R&B. E o cabelo em formato de “colmeia”, marca registrada da sua aparência, na metade para o fim da carreira, não esconde o interesse.


Assim, ela nos ensina, de forma implícita, ou não, que a arte transcende o purismo e o uso do prazer nostálgico para evocar insatisfações. Críticas e observações, sejam elas reais ou não, são restritas ao campo da opinião. No fim, o que importa é o momento proporcionado pelo artista para o despertar da nossa humanidade, e da emoção em poder exibir, nem que seja por 2 minutos, um lado que muitas vezes ignoramos por medo dos olhares externos. Essa liberdade em aproveitar, independentemente do quão erudito e técnico seja o produto, é o que nos lembra da importância de sermos desprendidos ao sermos criativos.


- Por Gabriel Lacerda, do GMI

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