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Esse artigo não é um manual de boas maneiras para pessoas brancas



Segundo a ONU, ontem foi (21/03) o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial. Falar sobre questões raciais é um assunto complicado, podemos encarar esse problema de duas maneiras: (1) é entender o microverso pessoal de cada indivíduo ou (2) fazer uma análise mais antropológica e entender a origem do macroverso social. Porém é inevitável, falando de microverso, não fazer abordagem antropológica das raízes de um pensamento racista.


Atitudes individuais de pessoas brancas e não brancas sustentam o racismo em nossa sociedade, como afirma o escritor Ibram X. Kendi. O preconceito disfarçado de comentário sobre a roupa, o pensamento que vem à mente ou a piada pensada, mas não verbalizada também sustenta o nosso preconceito diário, o medo do cancelamento digital não minimiza o racismo, apenas internaliza ele.


Acho interessante ressaltar que esse artigo não é do tipo “10 atitudes racistas do dia a dia que você deve mudar”, muito menos um manual de boas maneiras sobre como pessoas brancas devem agir. Tentarei, na medida do possível e dentro do que está ao meu alcance, fazer você entender como funciona a dinâmica social antirracista.


MICROVERSO E O INDIVÍDUO


“Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”, começo esse primeiro tópico com a famosa frase da professora e filósofa Angela Davis, a frase perfeita para entender um pouco sobre o que eu quero dizer com esse texto.


O antirracismo é uma ação social contra todo e qualquer tipo de violência contra grupos raciais. E não, esse movimento não é exclusivo de um único grupo de pessoas, ele deve ser de todos.


Então, a primeira coisa a ser entendida é que somos todos racistas e não está tudo bem. Não falo isso para te atacar, você pode até se sentir ofendido ou estar me ofendendo nesse exato momento, mas é real. O racismo não é só o ódio direcionado.


Dentro de seu dia a dia, quantas pessoas pretas estão convivendo em igualdade com você? E não estou falando apenas de seus colegas de trabalho. É uma pequena provocação que lhe faço, seu microverso é inclusivo? Se não, o que você faz para mudar?


Nós como indivíduos recebemos estímulos diariamente desde que nascemos, uma pesquisa realizada pelo Center on the Developing Child, de Harvard, revelou que os estímulos que recebemos durante a infância impactam diretamente a vida adulta. Então, o meio em que somos inseridos na sociedade, o meio familiar, moldará diretamente nossos preconceitos, pensamentos e ações futuras.


Uma criança branca que cresce onde todas as pessoas pretas que conhece são funcionários, terá uma visão diferente de uma criança branca que cresce em um mundo onde as pessoas pretas são professores e amigos de escola. Nosso microverso importa.


É impossível entender um pensamento racista, mas é possível encontrar suas raízes e ela está presa a fundo na sociedade.


MACROVERSO E A SOCIEDADE


Querendo ou não, ainda vivemos em uma sociedade racista, as pessoas pretas ainda não vivem em uma situação de igualdade e isso não aconteceu do dia para noite, mas sim foi sendo construído, moldado e forjado. Em 1888, o Brasil estava abolindo a escravidão, enquanto isso, na Europa, os países estavam a todo vapor durante a Segunda Revolução Industrial, focados na fabricação de carros e máquinas autônomas.


Se passaram apenas 135 anos desde que a escravidão acabou no Brasil e, apesar de muitos duvidarem, os reflexos podem ser vistos até os dias de hoje. A melhor maneira de entender como a negligência do Império Brasileiro com a população preta impacta a sociedade até hoje é olhar sobre o ângulo certo.


Após a abolição, não houve nenhum tipo de política pública que reinserisse as pessoas pretas na sociedade. Nenhum tipo de auxílio, nenhuma ação empregatícia ou algo do tipo. Sem acesso a alfabetização, renda ou moradia, essa parcela da população foi marginalizada.


O voto era um desafio até às eleições de 1986, até aquele momento as pessoas analfabetas não podiam votar e a taxa de analfabetismo da população preta era de 57%. Hoje o cenário melhorou, mas ainda não é o ideal. O número de analfabetos entre os pretos é de 9,1% e os brancos é de 3,9%.


Outro dado importante que ajuda a construir nosso cenário é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2021, que revela que a proporção de pessoas pretas abaixo da linha de pobreza foi de 37,7%, mais que o dobro da proporção de brancos que é 18,6%.


Uma maneira para tentar trazer equilíbrio aconteceu em 2012, quando foi aprovada a Lei Federal que regula o sistema de cotas para universidades federais. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2020, 18% dos jovens pretos de 18 a 24 anos estavam cursando ou haviam cursado o ensino superior. Já entre os brancos da mesma faixa etária, esse número saltou para 36%.


Segundo a plataforma Lattes, serviço do CNPq, os alunos que cursam ou cursaram pós-graduação os números revelam um abismo ainda maior. Os números são: 2,7% são pretos, 12,7% são pardos, 2% são amarelos, menos de 0,5% é indígena e 82,7% são brancos.


RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS


Chegou a hora que eu deveria sugerir alguma solução milagrosa para os problemas até então apresentados, mas eu não posso fazer isso. Como eu citei anteriormente, inclusive no título desse artigo, isso não é um manual de boas práticas para pessoas brancas, não quero que você me use como exemplo, não sou dono da razão e nem da verdade.


Não sou especialistas em políticas públicas e nem sou um sociólogo especializado na luta antirracista. Mas, como jornalista, posso apresentar fatos, informações pertinentes que possam contribuir para que você consiga formar sua própria opinião. Longe de mim achar que esse artigo possa fazer você mudar de ideia, não era a minha intenção, mas sim colocar aquela pulga atrás da orelha e te perguntar uma coisa:


Você consegue enxergar o racismo dentro de você?


Carlos Becerene, Assessor de Imprensa do Grupo Mostra de Ideias

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