IA para a ralé, humanidade para a elite?
- Lennon Lima
- há 4 dias
- 7 min de leitura
Você se acostumou com absurdos no seu cotidiano. Alguns vieram na sorrelfa, na esguelha, na mineirice e te abraçaram sem que se desse conta. Outros já estavam na sala quando você chegou, mas, de tão opacos e silentes, nem percebeu os corpanzis branquelos a fazer sombra.
Dúvida? Eu te provo. Faz como o poeta do streaming e pega essa visão:
É de conhecimento até do mais ingênuo dos brasileiros, acima de 18 anos, ser indispensável para a saúde física e mental uma dieta balanceada, rica em nutrientes diversos e valorosos.
Talvez a maioria não saiba explicar exatamente por quê, mas sabe que alimentos industrializados e inflados por transgênicos não se enquadram no critério acima. Sabe que os alimentos ditos orgânicos são as melhores fontes de proteínas.

Mas veja só estes dados: é inacessível para 70% dos brasileiros uma dieta saudável, segundo estudo do Pacto Contra a Fome. Um levantamento feito por 40 cientistas da USP aponta que alimentos ultraprocessados já representam um quarto da alimentação dos brasileiros e apenas 31% de brazucas consumiram algum alimento orgânico nos últimos 30 dias (Organis).
O 6º artigo da Constituição Federal é claro quanto à garantia, a toda pessoa, do direito à alimentação adequada. Mas o que está em vigor é a lógica de mercado: não basta ter conhecimento ou preferência. Para ter acesso à alimentação saudável, é necessário poder aquisitivo.
Quem tem condições, orgânico na mesa. Quem não tem, ultraprocessados. E vida que segue.
Isto para ficar em um exemplo. Poderia aqui desenvolver sobre os artigos 205 e 196 da referida Carta Magna, mas aí você e o robozinho do Google, poderiam se indagar ansiosos e confusos: onde entra a IA nessa história?
Bem, digamos que o futuro da IA é ser o ultraprocessado da produção de conteúdo na internet. Talvez já seja e você não tenha percebido ou se escandalizado, assim como 70% dos brasileiros incapacitados de manter uma dieta ideal.
O começo do bafafá
Essa perspectiva inusitada em relação ao conteúdo de IA surgiu por conta de almofadas.
Travesseirinhos de Natal vendidos em uma loja popular entre as tantas existentes no Brasil.
A mãe do artista e comunicador digital João Pedro Feio comprou almofadas com Papais Noéis na estampa para fins decorativos. Até aí, nada de novo debaixo do sol, mas os barbudos das almofadas deram um gatilho para um insight que inflamou a internet no começo do ano.
Foi repercutido por pessoas como o Linck, do canal Quadrinhos na Sarjeta, e talvez tenha atingido seu auge ao ser mencionado pelo Jovem Nerd, popularíssimo e longevo canal de cultura nerd na Youtubesfera.
Notadamente, a ilustração das almofadas era feita por IA, segundo Feio. Isso lhe trouxe uma reflexão que culminou em: “A inteligência Artificial não vai democratizar a arte. Vai segmentá-la socialmente”.
A lógica é a seguinte: conteúdos e produtos feitos com aplicações de IA dominarão feeds e prateleiras não por serem, por essência, superiores em termos de qualidade ao trabalho de carne, ossos e vísceras. Mas por serem altamente reproduzíveis a custo baixo.
A IA seria o novo sapatinho de cristal do mercado: encaixa sob medida nos seus pezinhos de Cinderela saltitante. Produção rápida, sem mão (literalmente) de obra e sem decisão estética. Um prompt copiado e colado e, voilá, mercadoria pronta, margem de lucro alta, estética que se exploda.
Mas meu caro sexto Lennon mais famoso do mundo (os 5 primeiros conto pra quem tiver curiosidade), essa teoria não subestima o senso crítico das camadas mais populares? Não é achar que pobre é tudo ignorante e aceita qualquer coisa que vê pela frente? Não há um viés preconceituoso ou simplista demais nessa teoria?
Veja, repare que ainda não estou dando minha opinião, mas defendendo o argumento: certamente há quem preferirá trabalhos mais artesanais por questão de gosto estético, mas o que o mercado tenderá a apresentar como solução, e não se tratará de nenhuma novidade, será o binômio oferta e procura. “Você quer arte mais detalhada, feita por humanos? O preço é esse, 2 xis a mais que a arte de IA”.
A arte humana tenderá a ser valorizada, não por questões éticas ou humanitárias, mas para capitalizar sobre o suor alheio, transformando-o em artigo de luxo, dotando-o de capital simbólico.
Será mais caro porque é mais trabalhoso, custoso, demorado, porém original e único. Representará símbolo de status, diferenciação, em relação ao “populacho” que se esbalda e vomita conteúdos genéricos requentados.
Não se trata de certo e errado; trata-se da vida como ela é tendo como referência a história do comércio mundial até aqui.
Alucinação ou epifania?
Nem tudo que parece lógico é confiável. As teorias da conspiração, por exemplo, apresentam linha de raciocínio com lógica interna, por isso conseguem seduzir desavisados ou desmiolados, mas nem por isso deixam de ser o que são: um disparate com objetivos espúrios ou jocosos.
O insight do camarada Feio faz sentido ao nos debruçarmos na história e analisarmos o comportamento humano.
Porém, ainda não há dados confiáveis que confirmem essa suposta tendência levantada pelo comunicador.
O que há de concreto, na verdade, é que o acesso à IA generativa no Brasil, por exemplo, concentra-se mais nas classes A e B, denotando desigualdade digital entre classes mais e menos privilegiadas.
Também não há indícios materiais robustos o suficiente para indicar que os profissionais de design e criação foram impactados positivamente. Fora relatos esparsos sobre pessoas e empresas dispostas a esbanjar PIX para um trabalho de criação manual, o que tem aparecido mais em evidência no noticiário são demissões em massa provocadas por uso de IA.
Mas sejamos justos: a questão levantada diz respeito ao consumo de conteúdo de IA e não à sua produção. Também vale salientar que a falta de dados ou pesquisas volumosas sobre mudanças do mercado de trabalho não significa que essas mudanças não existam ou não estejam por acontecer.
Meus centavos sobre
Começo a resposta á Sócrates: Por que uma pessoa está disposta a gastar R$10 mil em um bolsa Prada? Seria pela qualidade? Mas você acha mesmo que a diferença de qualidade entre essa bolsa e uma genérica do Brás está fielmente representada por esse valor hiperbólico?
Considerando que o desenvolvimento tecnológico das últimas décadas tornou o acesso a tecnologias de produção menos onerosa e mais democrática, é difícil acreditar sobre tamanha superioridade entre um produto e outro.
O fato é que não há diferença tão gritante quanto à funcionalidade. Uma bolsa Prada vai cumprir com a mesma função de uma bolsa artesanal feita por uma costureira doméstica e, a depender dos cuidados empregados, terá tempo semelhante à vida útil.
Então, porque alguém se dispõe a gastar uma dinheirama em um acessório que pode ser encontrado em versão similar e infinitamente menos oneroso?
Por status. Uma pessoa que compra Prada está interessada em mais do que qualidade e estética, mas em demonstrar que tem condições de investir em um objeto caríssimo, de fazer parte de um clube seleto. Pessoas gostam de se distinguir, se diferenciar, de construir um senso de grupo que se identifica por valores e afinidades.
Quanto mais o conteúdo de IA se vulgarizar, menos “premium” deixará de ser. Não só por esse desejo de distinção, mas, avalio, pelo imperativo da lógica de mercado.
Vivemos em um modelo de produção em que grupos econômicos, das mais diversas ordens, estão em constante disputa pelo suado dinheiro dos outros. Diante de tamanha concorrência, a necessidade constante é se destacar, chamar atenção, mostrar-se diferenciado em todas as camadas e poros possíveis.
Creio que realmente não tardará para o megaempresário incomodado de sua marca produzir as mesmas peças gráficas que um armazém de esquina decidir optar por conteúdo único.
Por enquanto, a medida adotada em sobejo é trocar de prestador de serviço ou funcionários por outros mais “criativos”. Mas chegará o dia em que o foco se centrará na política quanto ao uso de IA. Ai, senhoras e senhores, poderá ser a volta por cima dos criativos que no momento estão sendo escanteados.
É para desligar a IA?
Você que já se acostumou com a tecnologia e acha uma delícia o tempo que ela economiza, calma. Mesmo que o futuro caminhe para as elites privilegiar o trabalho humano, o conteúdo por IA não será escorraçado, cuspido e humilhado como a Geni de Chico Buarque.
As vantagens que a tecnologia proporciona são incontestes e garantem diferencial produtivo e competitivo indispensáveis. Lembre-se sempre da lógica de mercado.
A tendência é que posts extremamente genéricos, feitos por prompts ridiculamente básicos, ou que não recebam intervenção humana (uma revisão básica que seja), virem o batom na cueca da produção de conteúdo.
Hoje e sempre, a IA deve ser usada como recurso acessório, não como uma empresa terceirizada que faz tudo por você. Isso é usá-la como muleta e se expor ao risco de gerar conteúdo com a personalidade de uma porta de consultório.
A questão para se refletir é se a qualidade, a aliança saudável entre olhar humano e velocidade de criação das IAs, será privilegiada em relação à escala de produção.
Acredito que atravessaremos fases. De começo, com a euforia da margem de lucro proporcionada pela criação à velocidade da luz e sem intermediação de mão de obra, o comércio e as redes serão tomados por versões artificiais de bons trabalhos humanos.
O segundo momento, poderá ser a impopularidade desses produtos genéricos e adoção de uma política de IA mais equilibrada como diferencial competitivo.
Agora, quanto tempo durarão essas fases e os danos que podem provocar ao tecido social, isso deixo para Nostradamus.
Arremate
Como assim danos ao tecido social? Fala português, alienígena! Não sou nenhum Freud ou sociólogo versado sobre psicologia das massas. Mas te parece saudável um futuro em que a comunicação com as massas se dará por meio de simulacros humanos? Não acha que seria um terrível empobrecimento das relações e dos afetos?
Amy Webb, futurista estadunidense apresentou um novo conceito na última SXSW chamado de: “terceirização emocional”.
Para ela, as IAs já deixaram de ser apenas sistemas inteligentes e passaram a ocupar funções antes reservadas às relações humanas.
A solidão, sob esse contexto, deixa de ser apenas uma condição social e se torna um mercado estruturado. A dependência, um modelo de negócio; o vínculo, potencialmente programável.
Até onde estamos dispostos a deixar a IA entrar nas nossas vidas? O quanto é saudável nos habituarmos a nos relacionar mais com códigos computacionais do que com pessoas?
O brasileiro passa mais de 9 horas diárias na internet. Passa mais tempo na tela do que com seus pais, filhos, companheiros e, seguindo essa toada, passará mais tempo interagindo com pessoas que não existem.
Para a elite, o convívio com a realidade, ainda que roteirizada com um viés comercial; para as camadas populares, uma imitação da realidade.
Sinistro.
Se esse é o provável futuro (e torço para estar errado), o que nos resta? Aceitar passivamente essa condição?
A saída pode ser a valorização do pensamento crítico e da expressão autêntica. Falar a linguagem que o mercado conhece: lucro e prejuízo. Valorizar mais conteúdos humanizados em detrimento dos puramente artificiais.
No entanto, isso necessitaria de uma política de Estado, um esforço conjunto da sociedade civil e governos para conscientizar sobre os riscos atrelados à IA.
Acredito que isso ocorrerá a curto prazo? Nem pensar. O lobby das big techs é gigantesco, e os benefícios proporcionados pela tecnologia são mais tangíveis que os possíveis problemas que possam ocasionar.
É, meus amigos e amigas. O futuro promete ser desafiador para quem não quer viver apenas de ultraprocessados.


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